A anorexia nesta história começou de forma gradual e mudou a vida da filha e da mãe. Sonia Denisicheva, a mãe Yulia e a terapeuta que acompanhou Sonia descrevem como a doença começou, como o tratamento decorreu e como a recuperação exigiu mudanças muito para além da alimentação.
A anorexia neste relato foi primeiro confundida com um capricho, e depois reconhecida como uma doença que exigia ajuda profissional, envolvimento familiar e uma reorganização profunda da vida diária. A história é contada a partir de dois pontos de vista e mantém-se próxima do que Sonia e Yulia viveram.
Em resumo
- A anorexia na história de Sonia começou aos 12 anos, após comentários sobre o corpo, troça de colegas, insegurança e a decisão de perder peso.
- A anorexia na história de Sonia passou da dieta para uma restrição severa, medo da comida, perda rápida de peso e uma perceção distorcida do próprio corpo.
- A ajuda profissional na história de Sonia incluiu uma psicóloga, uma dietista, internamento e psicoterapia com várias etapas de trabalho.
- A recuperação na história de Sonia não foi linear, porque os períodos de melhoria foram seguidos de recaídas sob stress, luto, exames, isolamento e relações difíceis.
- A mudança familiar na história de Yulia passou a fazer parte da recuperação, porque Yulia compreendeu que a anorexia era uma doença real e não um capricho adolescente.
Como começou a anorexia na história de Sonia?
A anorexia na história de Sonia começou quando Sonia tinha 12 anos. Sonia diz que a doença começou com comentários dos pais e de um treinador sobre o corpo, rejeição, piadas cruéis de novos colegas e a própria insegurança.
Uma viagem ao mar tornou-se o momento em que Sonia decidiu perder peso e entrar em forma. Sonia diz que uma decisão firme se transformou mais tarde numa procura sem fim de um ideal desconhecido.
Sonia media 158 cm e pesava 60 kg quando a perda de peso começou. Sonia perdeu 10 kg durante o verão e pesava 45 kg no inverno.
Sonia diz que a doença se desenvolveu de forma muito gradual e que, no início, não percebeu como estava a perder o controlo. Sonia diz que começou a comer menos, a ter medo de certos alimentos e a deixar de saber como comer normalmente sem pensamentos obsessivos.
O que aconteceu quando a perda de peso se tornou mais grave?
A perda de peso tornou-se mais grave mesmo depois de outras pessoas dizerem a Sonia que Sonia já tinha o aspeto ideal. Sonia diz que os elogios não travaram o processo, porque Sonia já se tinha apegado à sensação de controlo e aos resultados da perda de peso.
Sonia continuou a praticar desporto e diz que ainda teve força suficiente durante algum tempo, mesmo continuando a perder peso. Sonia diz que não queria voltar a comer normalmente porque gostava do que estava a acontecer ao corpo.
No verão antes de completar 14 anos, o peso de Sonia tinha descido para 40 kg. Os pais de Sonia recusaram assinar a autorização para uma viagem de escalada à montanha, porque tinham medo de que a filha ficasse exausta.
Depois de uma viagem para visitar o pai no México, Sonia voltou a casa a pesar 38 kg. Sonia diz que esse período foi o auge da perturbação, quando o problema já não era apenas perder peso, mas também dificuldades físicas sérias.
Que sinais mostraram que a doença se tinha tornado perigosa?
A doença tornou-se perigosa quando Sonia começou a sentir frio mesmo no verão, o corpo ficou coberto de pelos e a digestão da comida se tornou difícil. Sonia diz que percebeu que o corpo estava a tentar aquecer-se, mas as alterações não a fizeram sentir-se melhor.
Sonia diz que a família decidiu então procurar pela primeira vez ajuda de uma psicóloga. Sonia diz que resistiu à ideia e que houve crises, gritos e discussões em casa antes de aceitar.
Sonia diz que, mesmo com 37 kg, continuava sem se ver magra ao espelho. Sonia diz que o número na balança e a imagem no espelho deixaram de coincidir, e Sonia acreditava que ainda precisava de perder mais peso.
Sonia diz que, quando familiares, professores e colegas lhe diziam como o aspeto tinha ficado alarmante, Sonia não acreditava. Sonia descreve essa fase como uma deformação mental e não como simples discordância em relação aos outros.
Que ajuda recebeu Sonia em primeiro lugar?
A primeira ajuda eficaz na história de Sonia veio de uma dietista. Sonia e Yulia tinham ido primeiro a uma psicóloga, mas não sabiam que especialista era realmente necessário e não conseguiram resolver o problema durante algum tempo.
A dietista explicou como funciona a alimentação, porque a nutrição é necessária e o que os alimentos dão ao corpo. Sonia também recebeu um plano alimentar, e Sonia seguiu esse plano.
O plano alimentar ajudou Sonia a aumentar o peso para 41 kg, a recuperar o ciclo hormonal e a melhorar o funcionamento do corpo. Sonia também se habituou a comer corretamente, mas começou depois a ter medo de se afastar do plano.
Uma viagem posterior à Turquia voltou a desencadear esses medos, por causa da abundância de comida. Sonia regressou dessas férias a pesar 37 kg.
Porque foi escolhido o internamento?
O internamento foi escolhido quando o estado de Sonia se tornou tão grave que Sonia e a família compreenderam que Sonia podia morrer. Sonia resistiu inicialmente à admissão no Centro para o Estudo das Perturbações Alimentares, mas mais tarde reconheceu pessoalmente o perigo.
Yulia diz que a experiência foi muito difícil por se tratar de uma clínica psiquiátrica. Yulia diz que foram usados antidepressivos e antipsicóticos para reduzir o impulso e a persistência obsessiva de continuar a perder peso.
Yulia diz que a clínica lhe mostrou que a anorexia pode acontecer em qualquer idade e a pessoas de qualquer sexo. Yulia recorda ter visto doentes que eram crianças muito pequenas, adultos e pessoas mais velhas.
Yulia também diz que a clínica ensinou os pais sobre o que fazer em casa e como ajudar os filhos. Yulia diz que o trabalho de grupo com outras famílias a ajudou a começar a ver o problema de outra forma e a refletir sobre o papel dos pais.
Como funcionou a psicoterapia com Sonia?
A psicoterapia com Sonia passou por várias etapas, que são muitas vezes típicas no trabalho com adolescentes. A psicóloga clínica Anfisa Zakharova diz que os adolescentes em tratamento para perturbações alimentares sentem muitas vezes ainda mais stress do que os adultos, por causa da própria adolescência, dos exames escolares e da pressão de escolher uma profissão e um caminho para o futuro.
A primeira etapa foi construir confiança. Anfisa Zakharova diz que Sonia e a terapeuta falaram diretamente sobre a perturbação alimentar desde o início, regressando muitas vezes aos mesmos temas sobre a doença e o tratamento até surgir confiança e abertura.
A segunda etapa foi trabalhar os sentimentos de Sonia em relação ao tratamento, ao aumento de peso e às mudanças na alimentação. Anfisa Zakharova diz que Sonia tinha muitos medos, incluindo o medo de beber água por causa do inchaço, o medo de que o tratamento nunca acabasse e o medo de que os especialistas quisessem recuperar peso a mais.
A terceira etapa foi identificar os fatores de vulnerabilidade pessoal de Sonia que podiam agravar o estado ou provocar recaídas. Anfisa Zakharova diz que os principais fatores de Sonia eram a ansiedade e o cansaço, e que Sonia usava um diário diário de emoções e estados para notar sobrecarga, ansiedade, descanso e as ligações entre o estado e os sintomas.
O internamento trouxe uma melhoria duradoura?
O internamento não trouxe um resultado duradouro na história de Sonia. O artigo diz que os soros e a terapia na clínica não criaram uma melhoria a longo prazo, e que muitos psicólogos acreditam que o trabalho psicológico produtivo é difícil quando a medicação forte suprime emoções e reações.
Depois de regressar a casa, Sonia voltou a perder peso. Sonia diz que sentiu uma solidão intensa depois do hospital, juntamente com uma sensação de traição por parte dos familiares e raiva em relação aos médicos, e que esses sentimentos se tornaram novos desencadeadores da doença.
Sonia foi mais tarde levada novamente para a clínica com o pretexto de renovar uma receita. Yulia diz que o segundo internamento foi forçado, profundamente traumático e aconteceu durante outra descida rápida de peso.
Yulia pediu a alta de Sonia ao fim de cerca de um mês, porque Yulia voltou a ver o efeito da medicação e achou doloroso assistir a isso. Yulia tirou depois três meses de licença sem vencimento para ajudar Sonia em casa e não a deixar sozinha com a comida.
O que ajudou fora do hospital?
O apoio em casa ajudou Sonia a reconstruir a alimentação e a vida diária fora do hospital. Yulia diz que, depois da clínica, levou Sonia a Ayurveda e a massagens para ajudar na recuperação do impacto dos soros nos rins, mantendo-se ao mesmo tempo próxima para apoiar a alimentação e o bem-estar mental.
Yulia diz que a família conseguiu um bom resultado e que Sonia voltou a comer em restaurantes e cafés. Yulia diz que a anorexia também retira a vida social, porque torna a pessoa menos sociável e incapaz de passar tempo com os outros e comer diante deles.
A melhoria foi seguida de retrocessos quando voltaram a surgir perturbações hormonais e pressões externas. O artigo refere o coronavírus, o confinamento, uma relação pouco saudável com um namorado que insultava Sonia e os exames como fatores que agravaram novamente a doença.
Sonia diz que se habituou ao ciclo de ganhar e perder peso e até começou a pensar que toda a vida continuaria assim. Sonia mais tarde passou a dar mais atenção ao estudo, à criatividade e a si própria do que à aparência, e Sonia diz que a nova relação deixou de abalar a autoestima.
O que voltou a desencadear a recaída mais tarde?
O luto desencadeou outra recaída mais tarde na história de Sonia. Sonia diz que, depois da morte do avô, de quem era muito próxima, Sonia voltou a recusar comida.
Sonia diz que recusar comida e perder peso lhe trazia alívio. Sonia descreve a restrição alimentar, o controlo da alimentação e a contagem de calorias como a forma de lidar com sentimentos negativos e stress, empurrando a dor emocional para segundo plano.
Nessa altura, parecia provável outro internamento, mas esse internamento não aconteceu. Sonia diz que, quando tinha 16 anos, a mãe lhe disse que Sonia já era crescida e que a mãe não podia continuar para sempre a correr atrás dela e a tentar fazê-la recuperar o bom senso.
Sonia diz que essa conversa lhe deu pela primeira vez uma verdadeira motivação para recuperar. Sonia passou então a ir sozinha a uma psicóloga e começou a treinar no ginásio para ganhar peso, com o apoio da mãe e do namorado.
O que mudou quando Sonia assumiu a responsabilidade pela recuperação?
A recuperação começou a parecer diferente quando Sonia assumiu pessoalmente a responsabilidade por ela. Sonia diz que começou a gostar de ganhar peso, sentiu-se satisfeita com a figura e quis voltar a sentir-se uma rapariga em vez de continuar a sofrer no mesmo ciclo.
Yulia diz que disse a Sonia que estava pronta para a apoiar emocionalmente, mas que já não queria controlá-la nem carregar toda a responsabilidade, porque Sonia estava a crescer e já tinha conhecimento e apoio suficientes para pedir ajuda por iniciativa própria.
Yulia também diz que a doença pode trazer ganhos secundários, como atenção, admiração e a sensação de ser especial. Yulia diz que essa dinâmica se tornou muito evidente em certo momento no caso de Sonia.
Sonia tem agora 18 anos e diz que se sente muito melhor e está em remissão estável. Sonia diz que a autoestima está agora no ponto mais alto e que sente orgulho pelo resultado alcançado.
Como mudou a doença Sonia e a mãe?
A doença mudou tanto Sonia como a mãe. Yulia diz que a história a ensinou a aceitar e a amar a filha como ela é, sem esperar conquistas nem medir o valor da filha pelo desempenho.
Yulia diz que a doença de Sonia lhe mostrou que também era preciso mudar algo na própria vida de Yulia. Yulia diz que tinha reprimido muito dentro de si, incluindo momentos pessoais de não aceitação de si mesma e do próprio corpo, e que a psicoterapia a ajudou a viver essa experiência.
Durante o tratamento de Sonia, Yulia traduziu materiais metodológicos sobre perturbações alimentares porque existiam muito poucos disponíveis em russo. Yulia mais tarde também recebeu formação em psicologia, e o artigo diz que isso mudou a forma como mãe e filha viam a vida e a relação entre ambas.
O artigo termina dizendo que a tragédia se tornou um ponto de viragem para Sonia e para Yulia. A doença mudou as duas mulheres e ajudou-as a reconhecer problemas fundamentais nas próprias vidas.
Perguntas frequentes
Que idade tinha Sonia quando a anorexia começou?
Sonia diz que a anorexia começou quando Sonia tinha 12 anos. Sonia relaciona o início com comentários sobre o corpo, troça de colegas, insegurança e a decisão de perder peso.
Quanto peso perdeu Sonia no início?
Sonia media 158 cm e pesava 60 kg quando a perda de peso começou. Sonia perdeu 10 kg num verão, pesava 45 kg no inverno e mais tarde chegou aos 38 kg e depois aos 37 kg.
Quem ajudou Sonia durante o tratamento?
O tratamento de Sonia envolveu uma psicóloga, uma dietista, cuidados hospitalares e psicoterapia com a psicóloga clínica Anfisa Zakharova. Yulia, a mãe de Sonia, também esteve profundamente envolvida no apoio a Sonia em casa.
O tratamento resultou imediatamente?
O tratamento na história de Sonia não resultou de forma linear. Sonia teve períodos de melhoria, mas o stress, o medo, o luto, os exames, o confinamento e relações difíceis foram seguidos de recaídas.
O que acabou por ajudar Sonia a avançar para a remissão?
Sonia diz que a verdadeira motivação surgiu quando decidiu recuperar por iniciativa própria aos 16 anos. Sonia diz que a terapia, o apoio da mãe e do namorado, e a mudança de atenção para o estudo, a criatividade e a vida para além da aparência ajudaram.